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Quando um estendal de roupa nos enche o coração

Costumava ver a vizinha á janela todos os dias, enchendo o estendal de roupa.

Espalhava-o com grande minúcia, estudando cada espaço com uma religiosa dedicação. Divertia-me ver como ela tinha sempre tanta roupa no arame: imaginei-a a lavar a casa toda.

Ponderei ir levar-lhe a minha roupa para ela se entreter.

Todos os dias, lá estava o estendal com tudo aquilo que fosse digno de ser lavado.

Até que um dia, o estendal apareceu vazio. Estranhei esta ausência para logo me convencer que ela devia ter uma terra algures para onde se recolheria com a família de tempos a tempos.

Até ao dia em que a janela se abriu e foi um velhote que vi, com muita dificuldade mas igual minúcia, a pendurar todos os dias alguma peça de roupa.

Uma parte de mim sentiu um aperto. Percebi que não estamos preparados para as mudanças dos hábitos que nos confortam. Achamos que todos estarão sempre nos mesmos lugares para sempre.

Mas também me apercebi o quanto é importante cuidarmos do rasto que deixamos no Mundo. Só assim permanecemos no coração de quem gosta de nós. E até de alguém a quem nunca conhecemos.