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Histórias da minha vida: O dia em que fui surpreendida por um canalizador

Viver implica estarmos abertos ao imprevisto que tantas vezes nos surpreende, comove e acrescenta qualquer coisa ao nosso mundo emocional.


Foi o que aconteceu naquele dia, tinha eu cerca de 27 anos. Vivia sozinha e vi-me a braços com um problema num cano da cozinha. Pedi ajuda aos vizinhos e lá me deram o contacto do canalizador mais conhecido da zona. Era um pouco careiro, avisaram-me, mas muito bom.



Estremeci com a perspetiva de ter de pagar muito dinheiro, mas não tinha outro remédio. Precisava dos seus serviços e liguei-lhe. Podia vir ter comigo daí a minutos, não morava longe e estava livre.


Á hora combinada, vejo a subir as escadas do meu prédio um homem na casa dos cinquenta e muitos, munido com uma mala grande a imitar pele, semi aberta e já bem gasta. Parecia pesada, pelo que o homem vinha meio desengonçado. Assim que me viu parou e ficou a olhar para mim, mostrando-se surpreendido. Incomodada, fingi não notar. Cumprimentei-o e ele retribuiu, tentando, sem sucesso, aparentar normalidade. Tudo me passou pela cabeça.


Não tinha outro remédio senão aguentar. Nada de mal haveria de me acontecer, pensei. Observei o homem atentamente, enquanto o via debater-se com o cano debaixo do lava-loiças.


Concentrado no seu trabalho, arranjava sempre maneira de continuar a falar comigo, sem mostrar em momento algum, sinais de abuso de confiança ou atrevimento. No entanto, sempre que eu falava ou sorria, parava por momentos e retribuía o sorriso. Cheguei a notar um brilho no olhar que não conseguia identificar. .Depois lá se recompunha. As nuances eram tão subtis que me deixavam confusa. Não sabia o que pensar, mas deixei de estar à defesa.


O trabalho ficou pronto no fim da manhã. Quando chegámos ao momento do pagamento, o mistério foi finalmente revelado. O homem, claramente pouco à vontade, baixou ligeiramente os olhos e disse-me: “Menina, desde que a vi que me deu um nó. A menina é tal e qual a minha filha que está a viver na Austrália. Não a vejo há tanto tempo. Filha única, sabe? Sinto tanto a falta dela!” Confessou, procurando disfarçar os olhos húmidos. Senti um aperto no coração e sorri. Continuou: “Por isso, não lhe vou levar nada. Vir aqui foi como estar com ela. Gostava de lhe dar uma coisa, importa-se? Dá-me um minuto para ir a casa buscar? Moro aqui perto”. Fiquei embatucada. “Claro!”. Voltou daí a uns minutos, meio desajeitado, com um saco cheio de pedras. “Apanhei estas pedras para ela, para que levasse um pouco da nossa terra e de nós lá para a Austrália. Ela adorava apanhar pedras à beira mar. Mas olhe. Ela não tem vindo cá. Isto até deve pesar na mala. Dou-lhas a si. Posso?” Disse ele, enquanto me estendia o saco. Fiquei comovida. Prometi que as ia colocar numa taça bem à vista. Ele sorriu, então bem mais leve.


Já passaram uns anos, mudei tantas vezes de casa. Estas pedras acompanharam-me durante muito tempo, até ao momento em que decidi devolvê-las ao mar. Enquanto o fazia, desejei profundamente que as pedras gritassem esta mensagem de amor através dos mares até serem acolhidas pelo coração e, quem sabe, pelas mãos daquela filha. Que os oceanos que os separam, possam também uni-los.


Agradeço a este homem a lição de generosidade, amor e humildade.


Aprendi também que nem tudo é o que parece. Às vezes é bem melhor.